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Oceania: explorando, não conhecendo
"No momento em que um selvagem australiano sai para caçar, sua aparência e modo de agir passam por uma fantástica transformação: o olhar, antes pesado e apático, ilumina-se e nem sequer por um momento se fixa num objeto; o andar e os movimentos, antes lentos e preguiçosos, tornam-se ágeis e inquietos, embora silenciosos; ele caminha a passos rápidos e furtivos, seus olhos movendo-se de um lado para o outro, vigilantes, ansiosos por detectar sinais de caça, temerosos de encontrar inimigos ocultos. Cada um à sua vez, a terra, a água, as árvores e o céu são submetidos ao olhar perscrutador, capaz de inferir presságios a partir das mais insignificantes circunstâncias. Ele mantém a cabeça erguida enquanto avança em ritmo variável. De repente, suspende a marcha e o gesto em movimento, como se subitamente petrificado. À sua volta nada se mexe, mas seus olhos vigilantes e inquietos movem-se de um lado para outro, enquanto a cabeça e todos os músculos parecem imobilizados; o branco de seus olhos descreve rápidos movimentos, enquanto toda a sua sensibilidade está concentrada, e sua alma totalmente absorta nos sentidos da visão e audição." —Sir G. Grey, Expeditions in Western Australia [Expedições no oeste da Austrália], 1837–18391
No quadro Impersonation [Personificação] (1984), de Geoff Lowe, há uma figura representada na pose típica do Aborígine Mítico: apoiado sobre uma só perna, como cegonha, tendo numa das mãos o bumerangue e na outra a lança, o olhar atento a um vasto e aberto algures. Porém este lugar não é aqui. Aqui o espaço não é infinito, mas limitado, determinado pela largura, altura e profundidade de uma passagem interna. Nessa figura, nada é particularmente convincente—meio tola, escondida por uma tosca máscara de rosto negro, a indumentária escura e folgada como aquela dos ajudantes de cena "invisíveis" no teatro Kabuki, um fio de contas tribais enrolado no pescoço—para não falar da fatura tênue, esboçada, processual—como a vida, e não à guisa da vida. Ainda assim, devido a toda sua contingência, este quadro é perturbador, seu sentido deslizante evoca todo tipo de idéias contraditórias que você e eu possamos ter sobre o Outro—idéias mais moderadas, talvez, do que as reações, que se alternavam entre idealização e depreciação, dos colonizadores europeus aos povos indígenas, em suas descobertas e usurpações da chamada terra nullius, mas conflitantes assim mesmo. Imitando nossas brincadeiras infantis de adivinhação e de "vestir de gente grande", essa imagem também nos dá a noção de como nos sentiríamos se fôssemos aquele Outro agora, na cultura nervosa de nosso presente. Ao reunir o mundo do atelier do artista e o mundo construído de múltiplas maneiras que habitamos, Impersonation esforça-se para tratar daquilo que é o não conhecer, neste caso apresentando, em nosso meio moderno, impressões contraditórias e freqüentemente estereotipadas—"os modelos que trazemos dentro de nós"2—dos mais antigos povos indígenas. 1.Londres, 1841, vol. 2, p.267 in Paul Carter, The road to Botany Bay: an exploration of landscape and history, Chicago: Chicago University Press, 1987, p.350.
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