(continuaçâo)

Tatau (1978“86) é um processo de representação que também se realiza num quadro restrito, desta vez (segundo nos informa a legenda) uma sala de estar residencial nos subúrbios de Auckland, Nova Zelândia. Entretanto, não há aqui fantasia improvisada; o próprio corpo humano desnudo, objeto da pintura, é "envolto em imagens" [trad.] no tradicional processo de tatau samoano. Ao recuperar a tatuagem a partir de taxonomias descorporificadas do arquivo colonial para documentar sua afirmação visceral de experiência individual e coletiva, o fotógrafo Mark Adams descreve seu trabalho de estripação como uma reação consciente ao seu estar num determinado momento histórico·"Em 1978, a Nova Zelândia não integrava a Polinésia. Havia o medo como reação indigna àquilo que não conhecíamos"3·e ao espaço emergente de cruzamento de culturas que o fotógrafo passou a observar e ocupar naquela época, levado por seu próprio desejo de criar imagens a partir de experiências radicais. Juntamente com o artista e seu objeto·a interação entre o tatuador, seus colaboradores e a "vítima" [sic]·, participamos da manifestação de uma provação tribal, que é ao mesmo tempo autenticamente alienígena e radicalmente alterada por seu novo contexto. Enquanto trabalhava, integrando-se no turbulento processo social do tatau, onde a realidade é tanto o compartilhamento de uma vivência extenuante, quanto o local onde ela ocorre, Adams descobriu que a própria barreira entre culturas não era fixa. Se os samoanos que ele conheceu adotavam o tatau como maneira de afirmar sua identidade, alguns o faziam num contexto que viam como um espaço deslocado; para outros, o espaço se deslocava no tempo para tornar-se um novo espaço cultural compartilhado, ligando o lugar da realidade atual com o evento de determinação histórica. Consciente do fato de que sua posição de estrangeiro no quadro acarreta um perigoso grau de deslizamento entre o que ele diz estar fazendo e o que realmente está acontecendo·aquilo que, segundo sua experiência, no passado parecia corporificar a familiaridade, ser conhecido, agora apresentava-se instável·, Adams consumou o paradoxo, transformando-o em efeito positivo. "Estas seis imagens definem, para mim, os limites daquilo que agora acho razoável, mais ou menos bom. E isto pode ser, em parte, porque se Paulo (o tatuador), sua família e os outros samoanos que agora conheço, antes eram aquilo que eu não conhecia, agora certamente não são mais. Portanto, se a distância propiciada pela ação de †transformar em outroË for reduzida ou removida por meio de negociação, talvez a potência do argumento sobre quem pode representar quem seja proporcionalmente diminuída. Ou talvez isso nem tenha mais importância."4






3.Mark Adams em correspondência com a autora, maio 1998.


4.Idem.