

"O que se dá hoje a pensar não pode
ser escrito segundo a linha e o livro, a não ser que se imitasse a operação que
consistiria em ensinar as matemáticas modernas com o auxílio de um ábaco. Esta
inadequação não é moderna, mas hoje se denuncia melhor do que nunca. O acesso à
pluridimensionalidade e a uma temporalidade des-linearizada não é uma simples regressão
ao 'mitograma': ao contrário, faz toda a racionalidade sujeita ao modelo linear aparecer
como uma outra forma e uma outra época da mitografia."
Jacques Derrida
"Um novo tipo de artista aparece, um
arquiteto do espaço dos acontecimentos, um engenheiro de mundos para bilhões de
histórias por vir: ele esculpe o virtual."
Pierre Lévy
"... o espantoso crescimento de nossos
instrumentos, e a flexibilidade e precisão que eles atingiram nos asseguram
modificações próximas e muito profundas na antiga indústria do belo. Há em todas as
artes uma parte física, que não mais pode ser vista e tratada como o era antes. É de se
esperar que tão grandes novidades transformem toda a técnica artística, chegando mesmo
a alterar a própria noção de arte."
Paul Valéry
Quando Walter Benjamin escolheu esta
citação de Valéry para abrir seu ensaio "A Obra de Arte na Época de sua
Reprodução Técnica", pretendia mostrar que as tecnologias de reprodução de
imagens, como a foto e o cinema, alteravam o cerne da experiência artística, abalando os
conceitos de aura, valor cultural e autenticidade. Ele acreditava que essa mudança era
positiva, por desmascarar a ideologia elitista da estética ocidental. Para Benjamin, com
o advento das novas tecnologias da imagem, a arte não deveria ser pensada em oposição
à indústria cultural, mas dentro dela.
É dentro desse marco teórico que planejamos a curadoria do Núcleo Web Arte da 24ª
Bienal Internacional de São Paulo. Se a fotografia e o cinema causam o primeiro abalo na
idéia de autenticidade artística, a Internet chega para destruí-la de vez. Uma obra
criada para a rede é, por definição, infinitamente reprodutível. Quando tratamos de
arquivos computadorizados ou de clones, como distinguir os falsos dos originais? As
facilidades da cópia digital através de Web estimulam o uso indiscriminado de
"referências". Como distinguir no mundo do software a apropriação
antropofágica do canibalismo da autoria?
A World Wide Web é fruto dessa sobreposição de referências e apropriações. Como
trabalhar sobre essa trama, que muitas vezes não passa de um emaranhado de fios sem
sentido? Seria possível selecionar algumas dentre as milhões de páginas (ou sites)
interligados nessa teia que envolve o planeta? O próprio conceito de curadoria deve ser
questionado nesse novo meio, em que qualquer pessoa pode utilizar sistemas de busca
automática e pesquisar em índices de endereços selecionados.
Assim, nossa ação curatorial se estrutura como um reflexo ou espelhamento da própria
rede, uma teia em miniatura, sempre em construção e aberta à criação coletiva. Os
nós dessa rede são um vocabulário de signos relacionados à antropofagia, ao
canibalismo e à World Wide Web. O visitante do site vai navegar nessas palavras em
movimento, e a um clique do mouse conhecerá os websites inicialmente selecionados para a
mostra. Mas a ação curatorial será um work in progress, permanentemente reelaborada
durante toda a duração da Bienal. Os visitantes poderão indicar novos sites para link
aos signos da teia. O resultado é uma mostra participativa, que convida os visitantes a
se tornarem também curadores _levantando assim questões sobre presença, monitoramento,
interatividade, tempo e espaço.
Meio antropofágico por excelência, a Web tudo absorve na interligação cada vez mais
complexa de conteúdos produzidos em todos os cantos do globo. A postura oswaldiana se
perpetua nessa proposta curatorial, que abandona o fetiche da autoria para se estruturar
como processo. Pretendemos assim devorar antropofagicamente o visitante da mostra, que de
observador se transforma em curador. Parafraseando o "Manifesto": a nós só
interessa aquilo que não é nosso.
Ricardo Ribenboim
Curador
Ricardo Anderáos
Curador-adjunto

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