(continuaçâo)

 

Bufão, espião, artista

O "artista", tal como o conheço, é um eterno imigrante, um exilado em seu ambiente natural, aquele que é incapaz de fincar raízes na ordem social existente. Um refugiado, cujo "torrão natal" recua para longe, para bem longe, por mais que ele tente alcançá-lo.

Nesta condição emocional não existem paradas intermediárias ou lugares onde alguém se possa abrigar: a "ausência" é o motivo, o álibi, o motor que consegue ir mais longe.

Esta condição coloca o artista na posição de crítico e observador social, alguém que discute e entra em disputa com aquilo que o rodeia. . .

O ponto de vista do artista é um conflito para o qual não existe solução ou escapatória. A "ausência" é uma entidade com identidade própria ou separada; a necessidade de procurar um público o força a camuflar, embaçar e dissimular esta identidade separada.

A identidade adotada pode ser a de um lunático, de um garoto rebelde, de um palhaço, de um animador de auditório, de um revolucionário, de um empresário da mídia, de um homem misterioso.

A essência do conflito está entre a identidade de uma pessoa que é basicamente "não-identificável" e sua própria compulsão ou necessidade de "colaborar" com alguém cuja mera presença define a alteridade do artista.

Estes e outros conflitos semelhantes moldam não só o caráter do artista mas também o caráter do "espião". Ele é um caráter adequado para trabalhar no serviço secreto como agente, duplo espião e provocador. É um caráter cuja identificação possibilita um envolvimento simultâneo e um distanciamento do círculo em torno dele, alguém que se ocupa alternativamente em criar e apagar os traços de sua independência, enquanto vaga perpetuamente entre a realidade e o universo alternativo de sua criação.

A condição israelense leva o papel do artista ao extremo, criando um paradoxo. O próprio ato de crítica social, na condição político-social existente, ajuda-o a firmar a permanência dessa crítica. Até mesmo pelas suas ações mais subversivas, o artista pode ser construído como um colaborador e servir como um biombo. Ele reforça a ordem social existente ajudando a criar um quadro de pretensa normalidade, no qual há espaço para idéias e críticas (e que está se tornando um canal de drenagem regulado e supervisionado e uma câmara de compensação para a agressão).

 

Shuka Glotman, 8 de maio de 1998

Traduzido do inglês por Carlos Eugênio Marcondes de Moura