Bülent Sangar
Halil Altindere
Khalil Rabah
Shuka Glotman
 



Des/aparecimento:o corte entre distâncias

 

Deixar de lado sua própria vivência em relação ao estado de espírito, que se manifesta coletivamente no Oriente Médio, e ligar-se a outros estimula as ondas emocionais e instintivas da experiência. Densas camadas e linhas socioculturais compõem a região. Elas forçam a realização de atos singulares e impõem interpretações comuns a todos. Estas tensões, ligadas à peculiar escrita e obliteração do "Eu/Nós", forjam encontros físicos. Tais realidades constróem níveis de significados regionais e indefinidos.

Poderes contraditórios marcam as realidades sociais da região. Ali a violência e a cultura se misturam. A fusão de grandes tensões políticas, diferenças étnicas e conflitos religiosos, onde floresceram antigas civilizações, constitui um cenário humano único. A situação é mais complicada na medida em que o Oriente Médio, tanto no plano cultural quanto no geográfico, situa-se em regiões da Ásia, África e Europa.

As tensões entre a vida privada e o espaço social, as modernas forças do Estado (quanto à organização), as alianças tradicionais, comunitárias e religiosas e a singularidade do eu são fortes demais. O social contamina tudo, cada momento e cada parte do corpo de uma pessoa. O singular está ligado ao plural, mas também carrega o plural dentro de si, como um órgão interno.

Latitudes que se abrem para os artistas, em outras partes do mundo, não são vivenciadas em muitas partes da região. O distanciamento cultural e a aparente imutabilidade da perspectiva religiosa, a negação efetiva do indivíduo e os sistemas de controle reduzem o papel da arte ao status de placebo. Essas realidades refreiam os artistas, que se prendem a padrões conhecidos de alienação e ortodoxia, e têm como pano de fundo a constante decadência das culturas tradicionais, a espoliação de ambientes únicos e a difusão de um urbanismo degenerante.

Bases sociais frágeis determinam uma posição peculiar para a presença artística crítica. O espaço público é compartilhado entre a volatilidade do verdadeiro e do falso, o religioso, o secular, o nacional, o étnico, o patrimonial, o econômico, entre o mercado global e os sistemas e poderes da comunicação. Qualquer atividade artística singular significa uma ruptura com formas sociais comuns de negociação e sugere outras probabilidades de escrita.

Nesta região frágil, os movimentos em direção a processos de arte críticos e autênticos são politizados, frustrados e, em certas ocasiões, considerados como algo que vem de fora do "Nós". A capacidade de esclarecer as percepções e idéias preconcebidas da região depende de improváveis pontos de vista, interlocais e comunitários.

É uma espécie de singularidade inatingível que sustenta uma perspectiva intercomunitária, desvenda situações obscuras, cria uma diferença e tem legibilidade global. Esta singularidade é uma diáspora regional interior, uma reclusão e uma alternativa que não ocorrem no exílio, uma leitura cultural rizomática. Este estado de espírito, este des/aparecimento, presente na diáspora, apresenta uma forma pessoal de experiência e uma sutil expressão crítica.

Ao ultrapassarem as fronteiras, abandona-se a própria alma e invade-se uma alma diferente. Devorar-se a si mesmo e ao outro. A proximidade é definida por uma experiência de possíveis impossibilidades, por se estar encerrado entre paredes. A viagem regional segue o rumo dos becos do isolamento. A jornada ao longo dos muros estreitos, e obscuros, é uma longa caminhada através de distâncias confinadas.

A noção de distância é obtida quando se atravessam territórios, ao se sair da sombra, ao se alcançar a realidade fulgurante daquilo que é fortuito e casual no eu/outro.

Roteiros do Oriente Médio traça um itinerário dentro das distâncias: afastando-se da própria situação, de um comprometimento com o outro e de uma experiência agressiva de realidade. O corte do "des/aparecimento" implica um movimento entre distâncias impossíveis: o movimento entre uma singularidade regional, imaginada e poderosa, e a realidade de uma mutualidade estilhaçada.

 

Ami Steinitz e Vasif Kortun

Traduzido do inglês por Carlos Eugênio Marcondes de Moura